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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

À espera do Capitão Rodolfo

           

               Na passada "Quadratura do Círculo" esteve presente o actual Primeiro Ministro que expôs de forma sucinta, mas elucidativa, as medidas  já tomadas na governação  sobre questões importantes, nomeadamente a reavaliação das últimas concessões e privatizações. É claro que, estando presente Pacheco Pereira, este não poderia deixar passar o momento sem  perguntar: 
- AO, sim ou não?
António rodeou, rodeou, foi buscar este Luís e o outro  Luiz  e que hoje já ninguém se incomoda  com isso, e pensando que se safava, acabou por dizer que cada um escrevesse como quisesse. 
- Para isso, então, vai ter que modificar os textos escolares e dar essa ordem às Escolas, disse PP. 
E mais assim e mais assado e a resposta concreta tardava.
Foi assim que, por uma associação de ideias, recordei a importância que o meu Pai dava à escrita, da acção de cidadania que desenvolveu,  interessando na cultura aqueles que não tinham dela  a menor ideia,  e por último veio-me  à lembrança a história  do capitão Rodolfo.
 *****
               O Capitão Rodolfo era um personagem de uma peça de teatro que o meu Pai ensaiou  com um Grupo  criado por ele, e que era constituído por pessoas da aldeia onde nasceu e que com a 4ª classe da época,  mais o pouco uso que lhe davam, mal sabiam ler. Formou o grupo,  arranjou sala, palco, cenários, guarda-roupa  e quando tinha tudo isso, lembrou-se que precisava de música. Não havia energia eléctrica. Havia a grafonola, mas não era isso o que ele queria.  
Então, disse-me assim: 
- Temos que organizar uma "orquestra". Eu toco violino. O primo Joaquim toca piano, ou o que for preciso!...  
Estalou uma gargalhada e prosseguiu.
- O primo José toca violão. Tu tocas banjolim.  Vou-te comprar um,  porque estás um bocadinho crua no violino para nos acompanhar!......
Outro riso! Tinha eu 10 anos e estudava  violino.
Faltavam as músicas mas, como era habitual, o seu amigo Dr Josué Trocado (avô de Freitas do Amaral) escrevia e orquestrava o que lhe pedisse.

*****
Chegou a Estreia!
Na primeira cena estava um indivíduo sentado na soleira de uma porta; um relógio batia 12 badaladas. O  homem levantava-se e elevando e baixando o braço direito de uma forma cadenciada, jeito que não foi possível modificar, dizia: 
-" Meia-noite....  e o capitão Rodolfo sem chegar.......ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?"
 Não me lembro da história, mas sei que o capitão Rodolfo  nunca chegou! 

*****

Tal como o capitão Rodolfo, a anulação do AO não chegará!
- Não  haverá novo AO nem se anulará o existente; disse o António com ênfase no Não !
Quem estava à espera disso, é melhor sentar-se .......


       CC    


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Casaco de Peles

foto da web

Em Nov. de 2008 comentei no Art&manha um recital de piano de Fausto Neves no Palácio da Bolsa. Ao ler aqui : "Piere-Laurent Aimard na Casa da Música" de Paulo Bastos, imediatamente me deu vontade de reler o que na altura tinha escrito; e, dada a semelhança de situações que os anos não corrigiram, vou publicar uma parte desse comentário:

" A GOLA DA MINHA CAMISA"

(...) Mas já há alguns anos que não ia a recitais no Palácio da Bolsa; e a minha perplexidade estacou ao ver que se mantém a clientela do « casaco de peles». O «casaco de peles»comporta um duplo sentido; para além da desnecessária opulência e de algum mau gosto, as suas donas mexem-se, segredam, dão um movimento ritmado ao programa que têm nas mãos, provocando um ruído surdo, impertinente, irritante e que, sem dúvida, significa uma total ausência àquilo que está a acontecer. Até tocou um TM num daqueles momentos de transcendente melancolia, tão bem conseguidos, na 4ª de Chopin.

E o tema que preocupava duas dessas damas situadas imediatamente atrás de mim, era se estaria a chover à saída, porque as peles do casaco, embora já o tivesse levado à Dinamarca, Suécia e não sei mais quê,nunca tinha apanhado chuva. Já o da outra era à prova de água. E então o raciocínio brotou eloquente: «sabes, deves comprar peles de animais que se molham» sic.

Havia muita gente muito atenta, isso é verdade.

Mas esta plateia fez-me lembrar a resposta dada por Chopin aos 7 anos, quando lhe perguntaram, de que é que a assistência teria gostado mais, depois do seu recital; ao que ele respondeu : «… da GOLA DA MINHA CAMISA».

Porto Nov. 2008

C.C.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A ponte de Chatou

Renoir "A ponte de Chatou" (1875)

Isto aconteceu em Janeiro passado, enquanto visitava a exposição no Museu do Prado, "Paixão por Renoir". As obras que se expunham, fazem parte da Colecção Sterling and Francine Clark Art Institute e era a primeira vez que saiam da América, e a primeira vez que Renoir vinha ao Prado .
Com curiosidade, fui ver a exposição; de resto vou com alguma frequência às exposições do triângulo museológico de Madrid: Prado, Bornemisa e Rainha Sofia.
E então, era assim:
Junto de mim, seguia uma jovem mãe acompanhada da filha que aparentava ter 5 anos. Desde logo me chamou a atenção, a forma como a mãe procurava explicar à filha o sentido das obras, usando gestos e expressões muito interessantes. Chegadas em frente da ponte de Chatou, diz a criança:
- Que puente es maman?
- El puente de Chatou.
- Como se diz, en espagnol?
- Chatou
- Chatou? E d'onde és?
- Mui cierca de Paris. Paris és la capital de la Francia.
- Ah!...
Poder-se-á achar vulgar; eu não achei.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As minhas histórias II

foto de C.C. Nascente do Alviela

A Nascente do Alviela e os Morcegos


A nascente do ALVIELA é uma das mais profundas do mundo e está localmente associada com um complexo de grutas que representa o fenómeno cársico fluvial mais significativo de Portugal. Situada no concelho de Alcanena, é um local que se recomenda visitar.
Foi o que fiz. E ao penetrar no «santuário» dos morcegos cavernícolas que lá existe,( o Quiroptário) falou-se das velhas histórias que ao longo dos tempos se contam sobre os morcegos. E a minha memória imediatamente me fez lembrar, o morcego que durante as noites quentes de verão, na minha infância, entrava pela janela do quarto que era obrigatório manter aberta.
O morcego em voo rápido, percorria o quarto e saía.
-
O morcego é um «rato com asas», mas é bom para comer os «trompeteiros», não faz mal. Dizia-me a Ana, empregada lá de casa desde os meus 3 anos e que lá permaneceu.........Ela sabia coisas!...e eu acreditava, mas sempre tapava a cara com a dobra do lençol, espreitando com os olhos bem abertos até o ver sair.
No quiroptário aprendi que os morcegos comem 600 mosquitos/minuto. Seria então por isso, que o tal morcego entrava e saía rápido.

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domingo, 9 de agosto de 2009

As minhas histórias I


                                             Érasme Quellin-retrato de menina
                                                 (museu Groeninge, Bruges)



O grão de milho
No fim de tarde de um Outono quente o milho estendia-se na eira a secar, mas, para não apanhar o relento da noite, arrecadava-se para o varandão ou, depois de junto no meio da eira, cobria-se com panais de linho.
Nesse dia, era essa a tarefa da Ana, enquanto eu no outro canto da eira brincava a encher os ouvidos de grãos de milho para experimentar a sensação de não ouvir. Mas não conseguia.
-
Chame por mim, a ver se ouço!...Tantas vezes isto se repetiu que, a Ana veio ver, o que se estava a passar.
-
Oh menina!... Qu’está a fazer?!
O pânico apoderou-se da cara dela; a aflição foi tanta que logo me convenci que o disparate era grande. De imediato me esvaziou os ouvidos mas, um grão teimou em não sair.
-
E agora?
-Vou ter que dizer à Senhora.
- Para que fez isso?
-E agora, se não sai?
Nesse atropelo de perguntas sem respostas, a ansiedade começou a apoderar-se de mim.
-
Oh minha senhora , a menina tem um “graeiro” de milho no ouvido!...A Mãe olhou e pareceu-lhe que o meu Pai resolveria o problema.
Foi-se acender o candeeiro de petróleo, o maior.
Estávamos em plena guerra mundial, com racionamento e a aquisição de petróleo, assim como os artigos de mercearia era feita por meio de senhas. Beneficiávamos da dispensa de algumas senhas por parte de pessoas que, não as utilizando, as cediam por razões económicas ou culturais.
Mas mesmo assim, faziam-se muitas economias. À mesa usava-se com frequência o candeeiro de azeite de três bicos; porque os candeeiros de petróleo seriam para se escrever ou ler. Mas também havia o candeeiro grande na sala de visitas; e foi esse que se acendeu.
O meu Pai estava sério; não o recordo zangado, mas apreensivo. Muniu-se de uma pinça que desinfectou com aguardente de casa, e depois de várias tentativas sem nada conseguir, concluiu:
-
Tem de se ir amanhã à Póvoa.
A Mãe suspirou com os seus habituais: - ai, ai!...
No dia seguinte, logo pela manhã fui à Póvoa de Varzim com a Mãe e dirigimo-nos à farmácia Lemos. O farmacêutico era nosso conhecido e era uma pessoa simpática e calma. Com um instrumento, que hoje sei tratar-se de uma cureta, tentou arrastá-lo, mas acabou por desistir.
-
Não é possível. Quanto mais tento, mais o enterro; é melhor ir ao médico.
-Vamos ao Dr. Vieira Trocado.
Agora é que o pânico se apoderou verdadeiramente de mim. Era o médico lá de casa para as coisas mais complicadas. Sim, porque o médico que frequentava a nossa casa era o Dr. João Alves, conhecido entre nós pelo Dr. de Macieira; grande fumador e jogador de damas. Era bom médico, inteligente, mas dada a amizade e confiança que existia entre nós, quando a situação parecesse mais preocupante, o meu Pai recorria ao Dr. Vieira Trocado.
Não gostava dele. Tinha uma expressão  de pessoa incomodada.
Entramos para a sala de tratamentos.
Nem um sorriso!
O tabuleiro do material cirúrgico exibia uma panóplia de ferros, assustadora.

Não me vai esburacar com aquela ferraria toda”.
“Eu grito” .
Estas frases rolavam no meu pensamento.
A minha cabeça começou a latejar. A Mãe, contrariada, lá me imobilizou conforme as indicações do médico, mas de nada valeu.
Gritei, pontapeei, mordi, de tal forma que, a minha Mãe, ela própria, ordenou que parasse. O médico, mal humorado, repreendeu-a pela incapacidade  de me manter submissa e calada.
-
Sendo assim, terá que ir ao Porto a um cirurgião; talvez com anestesia...
Entregou um cartão com o nome que ele recomendava.
A Mãe, no entanto, foi-se aconselhar com o meu tio António, irmão dela,  que vivia na Póvoa.
-
Antes disso vai ao Dr. Sampaio de Araújo.
O Dr. Sampaio de Araújo era um médico recentemente formado e que gozava de muita credibilidade, sobretudo tratando-se de crianças. O meu tio não se cansou de o elogiar. E  lá fomos!
O consultório era na residência. Entramos e aguardamos numa sala com  uma marquesa ao centro.
Sentia-me perdida. Nunca o tinha visto.
"
Como seria agora?"
De repente, entra na sala um homem alto, que compreendi de imediato ser o médico, a rir-se e num ápice, sinto-me a pairar no ar e logo em seguida sentada em cima da marquesa.
-
Então o que é que esta menina tão bonita andou a fazer?
-Sabes? Vamos fazer uma partida a esse “milheiro”.
-Vamos dar-lhe uma "mangueirada" e tu vais ver como ele salta cá para fora. Queres ver?
Senti que tinha ali um aliado. Enquanto isso, a empregada preparava a água acidulada bem como os apetrechos necessários.
E  sem me aperceber o que se passou...
-
Já está.
O grão de milho saltava no fundo da cuvete.
Não sei se ri, se chorei; a alegria era enorme!...
Mais tarde, proporcionou-se frequentar a casa dele.
Ele lembrava-se da menina do grão de milho.
Eu nunca o esqueci.


 C C
(fotografia de Mariano Pires
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