quarta-feira, 12 de maio de 2010

O dinheiro de São Pedro



De tal modo imitou o papa a singeleza
do mártir do calvário
que, à força de gastar os bens com a pobreza,
tornou-se milionário.

Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
o teu vigário humilde
conversando na Bolsa em fundos da Turquia
com o Barão Rotschild.

A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida,
por te haver dado a morte,
tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
sobre uma caixa forte.

E toda essa riqueza imensa, acumulada
por tantos financeiros,
o que é a economia, oh Deus ! foi começada
só com trinta dinheiros !
.
Guerra Junqueiro

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O CANTO DA TERRA

Der Trunkene im Frühling (“O Bêbado na Primavera”) o quinto andamento do Canto da Terra, é um hino aos prazeres da bebida. Um pássaro desperta o ébrio e, informa-o, que a primavera chegou durante a noite. O ébrio protesta e diz que não acredita ter nada a ver com a primavera ou o canto dos pássaros:

Und wenn ich mich mehr singen kann,
So schlaf’ ich wieder ein,
Was geht mich denn der Frühling an!?
Lasst mich betrunken sein!

“E se não posso mais cantar,
então durmo de novo,
que me importa a primavera?
Deixai-me com a minha embriaguez!”

segunda-feira, 3 de maio de 2010

VELHA SABEDORIA



Somos compradores de vinho novo e velho,

E ao mesmo tempo vendedores do mundo ao preço de dois

grãos de cevada

Perguntaste: "Após a morte para onde vais?"

Traz-me vinho! e vai tu onde quiseres.


Umar-i Khayyãm
poeta astrónomo e matemático persa
(1048-1132,d.C.)

O DOURO ontem na foz do SOUSA




Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
-surdo,subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

sábado, 1 de maio de 2010

MAIO

O meu País



O meu país sabe às amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.


sophia de mello breyner
As Amoras

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O cravo vermelho


Por estes dias vão continuar as críticas e os comentários ao que foi visto e dito na Assembleia da República.
Hoje destaco aqui

CRAVO VERMELHO AO PEITO

Os cravos nas lapelas de Aguiar-Branco e Passos Coelho provam apenas que a direita portuguesa precisou de 36 anos para se libertar da sua relação complexada com a ditadura e fazer as pazes com a revolução.
(...)Por ser tão tardio (e ainda não chegou ao Presidente da República), o gesto simbólico e concertado dos dirigentes do PSD denuncia o problema de identidade em que o partido viveu até hoje.(...)

Não por acaso, fá-lo no momento em que pede mais uma revisão constitucional (a citação de Lenine, por ser apenas provocadora, tirou força ao gesto). Ou seja, assume-se o símbolo para o colocar na prateleira da história e retirar-lhe força política. Assume-se o cravo para se poder renegar definitivamente a herança ideológica da revolução, fazendo passar a ideia de que as suas propostas representam o futuro e não um ajuste de contas com o passado.

Extraordinário que não tenham percebido há mais tempo que esta era a táctica mais inteligente. Durante anos ofereceram à esquerda o imaginário da esperança, da festa e da liberdade. Coisa que, com a história da direita portuguesa, foi mais do que justa. Mas facilitaram tanto…