domingo, 25 de abril de 2010
O Cravo Vermelho
Lenine, Rosa de Luxemburgo, citados por Aguiar Branco?
A este propósito, transcrevo uma parte d'este artigo "NÃO FOI UM PASSEIO NO PARQUE" de Zé Neves.
(...)Agora, de uma coisa haverá seguramente que defender Abril. Da sua patrimonialização abusiva. Aguiar Branco tem todo o direito em meter o cravo à lapela e fica-lhe bem. Dispensa-se é a poesia barata segundo a qual Abril foi feito "para todos os portugueses". Não foi. Foi feito por muitos portugueses e por muitos não-portugueses mas foi feito contra alguns portugueses. Daqui a nada estão a dizer que os descobrimentos foram feitos para toda a humanidade, só os escravos é que demoraram algum tempo a perceber. A isto acresce que alguns desses portugueses contra o qual Abril foi feito pertenceram à direita portuguesa e a ela pertencem. Hoje é feriado nacional e por isso todos estamos sob o espectro de Abril, mas o pior que poderia acontecer era esquecermos o antagonismo que pauta toda e qualquer revolução. Esse antagonismo não é um "mal necessário" ou um "excesso", mas é a própria essência da revolução a que daqui brindamos. Abril foi um passeio revolucionário no parque. Não foi apenas um passeio no parque.(...)
O 25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas
terça-feira, 13 de abril de 2010
novo livro
O MIÚDO QUE PREGAVA PREGOS NUMA TÁBUA
(excertos)
cap. 24
É possível que alguns leitores se interroguem sobre o que é, ao fim e ao cabo, este livro, e qual a sua relação, se alguma existe, com a literatura. Para dizer a verdade, não sei. Mas o miúdo que pregava pregos numa tábua, ou talvez o autor, quem sabe se eu próprio, já uma vez escreveu que, para ele, a poesia está aquém e além da literatura. E até confessou que de literatura pouco ou nada sabe. Mas sabe de um rio e de uma ria ou, se preferirem, sabe dos rios e dos mares e da influência da lua nas correntes e nas marés e, ao que parece, no fluxo do sangue, sabe do voo e do grito da narceja, que é um alerta e, ao mesmo tempo, um viva à liberdade. E sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e respiração da escrita. Num certo sentido já fez essa respiração boca a boca quando, na Nicarágua, acompanhado pelo poeta Fernando Silva, que se dizia descendente de portugueses, se sentou no rebordo da cratera do vulcão Santiago e sentiu o bafo que ritmadamente saía das entranhas da terra.
- Parece um boi a respirar - disse o poeta nicaraguense.(...)
cap. 30
- Parece que está a falar com Deus - suspira o da Cancela, depois de ouvir o Concerto nº5 de Beethoven.
- Não acho - diz o miúdo que olhava as águas do rio -, não sei se alguém fala com Deus ou se Deus é apenas um quê, assim mesmo, um quê sem ponto de interrogação. Seja como for, se alguém fala com esse mistério é Bach, porque talvez o Quê, agora com maiúscula, seja uma sequência matemática, um número lá no meio ou no fim, e isso é a música de Bach, uma interrogação contínua, uma equação a uma infinidade de incógnitas. Mas talvez não só Bach, talvez por vezes, o flamenco, quando a voz do homem ou da mulher parece vir do fundo da terra, ou quando na guitarra os dedos tocam uma sequência parecida com Bach. E Amália. E também certos poemas. Poucos.
- Devias escrever isso.
- É o que estou a fazer.
Manuel Alegre
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Lido de uma só respiração, este livro, é um poema feito em prosa.
terça-feira, 6 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
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O sol é grande
O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
ó cousas, todas vãs todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
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Sá de Miranda
quarta-feira, 31 de março de 2010
Páscoa feliz
ALELUIA
Não foi milagre ressurgir, Senhor,
Num dia natural de primavera.
Tudo ressurge quando tem calor.
É por calor que toda a morte espera.
Milagre era acordar no inverno, era
Subir da cova frio como a dor,
E, com neve nas dobras da quimera,
Mostrar a Madalena a carne em flor.
Contra a seiva da vida e a sua lei
É que valia a pena demonstrar...
Viver dentro da morte é que era um salto!
Assim, vejo-te apenas como sei:
Um corpo que parou de levedar,
E veio à tona ver o céu mais alto.
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Miguel Torga
