quarta-feira, 31 de março de 2010

Páscoa feliz



ALELUIA

Não foi milagre ressurgir, Senhor,

Num dia natural de primavera.

Tudo ressurge quando tem calor.

É por calor que toda a morte espera.

Milagre era acordar no inverno, era

Subir da cova frio como a dor,

E, com neve nas dobras da quimera,

Mostrar a Madalena a carne em flor.

Contra a seiva da vida e a sua lei

É que valia a pena demonstrar...

Viver dentro da morte é que era um salto!

Assim, vejo-te apenas como sei:

Um corpo que parou de levedar,

E veio à tona ver o céu mais alto.

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Miguel Torga

sexta-feira, 26 de março de 2010

As artes entre as letras

Vem publicado, esta semana, no jornal "As artes entre as letras"um belíssimo artigo de Maria Luiza Malato (F.L.U.P.) que é importante ler-se.


Os Justos de Albert Camus depois do 11 de setembro


Há datas em que vemos morrer o mundo tal como o conhecíamos. Nem sempre nos damos conta dessa morte, embora ela tenha sido anunciada, ou lentamente se consciencialize o luto, nas fases clássicas do modelo de Kübler-Ross: negação, cólera, negociação, depressão e aceitação. Mudamos nós e muda o mundo: individual e colectivamente, perante a falência dos valores em que fomos educados e a emergência da nova ordem de paradigmas em que nos pedem para viver. Primeiro, assistimos incrédulos. Depois, criamos eixos do mal. Ponderamos o tipo de aliados. Constatamos os longos fracassos. Aceitamos finalmente “viver sem”, porque temos de viver com tudo o que entretanto aprendemos.

Só depois organizamos o tempo histórico segundo esses ritmos de aprendizagem. Antes e depois do 11 de Setembro. Antes e depois do Holocausto. Antes e depois da Revolução Soviética. Antes e depois da Revolução Francesa… Essa organização é o desejo de compreendermos a nossa sociedade, aqui e agora, e é ele que nos faz ir buscar autores de outras épocas e de outras mortes, sempre em distinto retorno. A “redescoberta” da obra de Albert Camus neste princípio de milénio talvez tenha também a ver com essa “nostalgia de nós” que nos faz rever leituras e procurar no passado lições para o presente. Camus sabe que a Guerra de 39-45 e o Holocausto assinalaram o fim da sua juventude: “todas as gerações, sem dúvida, se julgam fadadas para refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não poderá refazê-lo. A sua tarefa é talvez maior. Consiste ela em impedir que se desfaça, partindo unicamente das suas negações” (Discursos da Suécia). A geração actual, que cresce entre a memória de cataclismos passados e o anúncio de cataclismos futuros, talvez compreenda melhor estas palavras do que “a geração” que existiu abstractamente entre elas: a que acreditava nos fins da História, marxistas ou demo-liberais, no desaparecimento das guerras frias depois da queda do muro de Berlim, ou no paradisíaco choque tecnológico de Tofler.

Surpreende-nos por isso um pouco que, neste contexto, a obra de Camus Os Justos (1949), traduzida por António Quadros, não tenha sido reeditada em Portugal. Mas é também significativo que a homenagem feita a Camus no CCB, a 10 de Janeiro deste ano, tenha incluído a projecção do filme Os Justos (2007), realizado a partir de uma encenação de Guy-Pierre Couleau. Os Justos, peça inspirada num facto histórico, é a “mise-en-scène” de uma “nova ordem”: uma célula terrorista, na Rússia czarista, prepara um atentado contra o Grão-Duque, a imagem do tirano, um obstáculo à Utopia de “uma terra de liberdade que acabará por libertar o mundo inteiro”. A intriga é progressivamente a consciência desse orgulho desmedido do libertador, que a natureza se encarregará de castigar: “Não pertencemos a este mundo: somos os justos. É-nos estranho um certo calor”. “Talvez seja essa a justiça do mundo”, concluirá uma das personagens. Escrita no pós-guerra, pressupõe as questões que derivam da consciência do cataclismo, mas também aquela última questão só possível depois de tudo aceitarmos como inevitável: até onde pode ir o nosso “viver sem”? Do que é que prescindimos (ou parecemos dispostos a prescindir) em nome da “nossa segurança”, da “estabilidade da nova ordem”? Porque todo o mecanismo de estabelecimento dessa nova ordem está imbuído de inevitabilidade e de eficácia. Percorre a futura nova ordem um não dissimulado mecanismo silogístico em que a premissa individual só demonstra o carácter absoluto da premissa geral.

Aceitemos. A aceitação é sempre uma forma de compreensão. Mas, ainda depois de aceitar, teremos de saber “como nos vamos comportar” perante a imperfeição do mundo? O âmago de O Homem Revoltado (1951) ou de A Queda (1956) está já em Os Justos (1949): “Decidimos não agir, mas isso equivale pelo menos a aceitar a eliminação do outro, na condição de lamentar harmoniosamente a imperfeição humana. Ou Imaginamos substituir a acção pelo diletantismo trágico, mas isso leva-nos a considerar a vida humana como uma vantagem lúdica. Podemos também propor o empreendimento de uma acção que não seja gratuita. Mas neste caso, não existindo qualquer valor superior que oriente a acção, tudo será decidido tendo em conta a eficácia imediata” (O Homem Revoltado). O mundo de Os Justos é, num primeiro plano, esta reflexão sobre a eficácia, numa sociedade de mestres e escravos, representada, no primeiro acto, pelo protagonismo de Stepan: “É preciso disciplina”, “Nada do que serve a causa pode ser desaconselhado”, “Sim, sou brutal (…), não estamos aqui para nos deslumbrarmos, mas para conseguirmos ter êxito”. O contraponto é feito entre Stepan e Kaliayev, denominado “o Poeta”: Kaliayev que se recusa a lançar a bomba para a carruagem do Grão-Duque quando o vê acompanhado por duas crianças. Kaliayev que se diverte quando toma identidades secretas, que inventa um toque de campainha para se fazer anunciar aos companheiros, que ama a vida, a beleza e a alegria mais ainda do que a justiça: “Amar-me-ias tu, ligeira e despreocupada?”, pergunta Dora. – “Morro do desejo de te dizer que sim”, responde Kaliayev. Edmond Burke, comentador dos excessos da Revolução Francesa, identificara já esse estranho sublime do homem em ruptura, um delicado equilíbrio entre o perigo e o deleite que o perigo proporciona: “as paixões que dizem respeito à conservação do indivíduo baseiam-se na consciência da dor e do perigo, ao passo que as que visam a criação têm a sua origem na alegria e no prazer” (The Philosophical Enquiry, I, 8). Os planos e os actos seguintes de Os Justos serão uma progressiva desmontagem da eficácia e dos seus limites. Os limites da eficácia são a fragilidade das crianças e a seriedade do seu olhar: “nunca aguentei esse olhar”. Os que libertamos e não querem ser libertados. Os que matamos e depois sabemos serem melhores do que os que salvamos. Os outros que depois da nossa morte social nos usarão para os seus interesses pessoais. A honra ou a delicadeza que se tornarão luxos de privilegiados. Até chegarmos a perder essa ternura extrema de viver ou morrer sem o orgulho da vitória, como reivindica Kaliayev: “o sol brilha, os rostos se inclinam docemente, o coração esquece a altivez, os braços abrem-se”. Camus tem em comum com Burke essa tensão ambivalente entre o perigo e a alegria: ambos compreendem essa vertigem irracional que leva “os justos” a desejar lançar a bomba, e os faz caminhar sem medo para a morte: aliás, “é tão mais fácil morrer pelas nossas contradições do que viver nelas”. Mas ambos recuam, como Kaliayev, perante os abusos em nome da justiça, da liberdade ou da fraternidade: “viste as crianças?”. Há em todo o sublime desconcerto do mundo uma ironia trágica que, a partir de uma certa desmesura, confunde as vítimas e os carrascos. Mary Wollstonecraft afirmava que Burke, se fosse francês, seria revolucionário, exactamente na medida em que, como inglês, era contra-revolucionário. Também simbolicamente o carrasco de Kaliayev será um companheiro de cela que, por o executar, verá descontado o tempo da pena.

Difícil é não verter sangue inocente quando se atinge o fio da navalha. Mas que desafio mais importante tem hoje a nossa época de eficácia?
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Retirado do "Ir ao Fundo e Voltar"

terça-feira, 23 de março de 2010

Poesia

Olympia-E. Manet
Museu d'Orsay


Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.
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David Mourão-Ferreira
As Tormentas


domingo, 21 de março de 2010

No dia mundial da poesia

Le déjeuner sur l'herbe- E. Manet
(Museu d'Orsay)

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 19 de março de 2010

Migalhas que ficaram VI




AS CONTAS


Durante a noite caiu neve. E tanta foi que embranqueceram outeiros e vales, arroteias de pão e globas de mato, ramaria das árvores e telhados das casas; e tão fria que gelou as águas das fontes e dos arroios, e endureceu o chão dos caminhos e o trilho das veredas.
Dos beirais das casas e dos ramos das árvores pendiam, como brilhantes estalactites, esguios e cristalinos fios de gelo em que o frio transformou, no espaço álgido e baço, pequenas gotas de orvalho na sua queda para o solo.
Das chaminés das casas saiam espessos rolos de fumo, ora escuros, como escuras nuvens borrascosas, ora farrapagem diáfana e branca, como brancos flocos de algodão que o vento esfarrapa e rasga no espaço. Fumo que se evola das fogueiras de labaredas altas a lambusarem os testos das panelas e as pedras dos lares e a irradiarem, ao redor, calor e alegria para o conforto dos que, à sua volta, se reuniam enquanto o sol não derretesse a neve que os prendia em casa.
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Três vultos embuçados se viam na paisagem plúmbea dessa manhã fria - os irmãos mais velhos de um agregado familiar. Iam a caminho da escola. Carapuças de lã enfiadas na cabeça até às orelhas, golas dos casacos levantadas e mãos enterradas nos bolsos, que não fossem elas empequecer.
Um chasco de penas erriçadas pousado num galho seco dum pinheiro novo pipilava transido de frio.
Além um melro, de bico amarelo, "negro, vibrante e luzidio", revolvia afincadamente com vigorosas bicadas e frenética canseira as folhas caídas das árvores, amontoadas e podres, para catar debaixo delas e pôr ao léu, os vermes e larvas que gulosamente ia devorando.
Atrás dos pequenos estudantes vinha um sacerdote. Alto e desempenado, depressa os alcançou a passos largos e destros. Era o pároco duma freguesia das redondezas que ia tomar parte na celebração de uns ofícios na igreja paroquial do local da escola. Levava no ombro direito a batina dobrada com o forro para fora e a fímbria para trás, e, no braço do mesmo lado, uma saquinha de veludo preto com borlas redondas da mesma côr nos cantos do fundo e nos cordões dos fechos. Para a identificar e não perder, as iniciais do seu nome numa das faces, bordadas com fios de lã verde, a ponto de cruz, garantiam a sua posse.
Transportava nela os paramentos próprios para os actos litúrgicos em que ia colaborar.
Rendia-lhe o andar. E, como os jovens interlocutores o queriam acompanhar para ouvirem e manterem a conversação que com eles entabolou, tinham de ir atrás dele, a maior parte do tempo, às corredourinhas, a rapelhar.
Quis saber das classes que frequentavam; inquiriu das dificuldades que lhes surgiam; e, abordando as disciplinas mais difíceis, ouvia, sugeria e comentava. Por fim, na oportunidade da conversa, enunciou deste modo as dificuldades da aprendizagem das quatro operações de aritmética:

-As de somar
fazem-se a cantar.

- E as de diminuir
fazem-se a rir

-E as de multiplicar? - inquiriram os moços interessados

- As de multiplicar
fazem-se a chorar.

- E então as de dividir?... - continuaram eles.

-Então com as de dividir
é largar os socos e botar a fugir...

E o melro que, no entretanto, acabara o seu lauto almoço,

(...)"lá foi, vibrante e jovial
a soltar por entre o arvoredo
lindas risadas de cristal"(...)



Rates, anos 60 
Joaquim D. Cancela

(citação de "O melro" G.J.)

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terça-feira, 16 de março de 2010

No dia dos anos da Graça

A minha homenagem


TARDE

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.
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Sophia de Melo Breyner Andresen

segunda-feira, 15 de março de 2010

Jean Ferrat


Morreu Jean Ferrat a 13 de Março passado, com 79 anos. Filho de judeu russo emigrado, viu com 11 anos , seu Pai ser deportado pelos nazis para Auschwitz-Birkenau onde morreu.
É salvo por militantes comunistas, tendo sido sempre simpatizante do Partido, mas nunca fez parte dele. Delimitou-se sempre dos métodos soviéticos, e as suas canções denunciaram sempre isso mesmo. Com "Camarade" denuncia e reprova a invasão de Praga pela Rússia. Com "Nuits & Broulliard" condena os horrores da deportação durante a guerra. Uma e outra, foram proibidas de passarem nas Emissoras.
Com ele, desaparece o último dos compositores e intérpretes, da era da canção francesa de intervenção.