terça-feira, 23 de março de 2010

Poesia

Olympia-E. Manet
Museu d'Orsay


Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.
.
David Mourão-Ferreira
As Tormentas


domingo, 21 de março de 2010

No dia mundial da poesia

Le déjeuner sur l'herbe- E. Manet
(Museu d'Orsay)

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,

Se morremos em tudo o que sentimos

E podemos cantar, é porque estamos

Nus em sangue, embalando a própria dor

Em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos

E a alma possuirá esse esplendor

Prometido nas formas que perdemos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 19 de março de 2010

Migalhas que ficaram VI




AS CONTAS


Durante a noite caiu neve. E tanta foi que embranqueceram outeiros e vales, arroteias de pão e globas de mato, ramaria das árvores e telhados das casas; e tão fria que gelou as águas das fontes e dos arroios, e endureceu o chão dos caminhos e o trilho das veredas.
Dos beirais das casas e dos ramos das árvores pendiam, como brilhantes estalactites, esguios e cristalinos fios de gelo em que o frio transformou, no espaço álgido e baço, pequenas gotas de orvalho na sua queda para o solo.
Das chaminés das casas saiam espessos rolos de fumo, ora escuros, como escuras nuvens borrascosas, ora farrapagem diáfana e branca, como brancos flocos de algodão que o vento esfarrapa e rasga no espaço. Fumo que se evola das fogueiras de labaredas altas a lambusarem os testos das panelas e as pedras dos lares e a irradiarem, ao redor, calor e alegria para o conforto dos que, à sua volta, se reuniam enquanto o sol não derretesse a neve que os prendia em casa.
=
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Três vultos embuçados se viam na paisagem plúmbea dessa manhã fria - os irmãos mais velhos de um agregado familiar. Iam a caminho da escola. Carapuças de lã enfiadas na cabeça até às orelhas, golas dos casacos levantadas e mãos enterradas nos bolsos, que não fossem elas empequecer.
Um chasco de penas erriçadas pousado num galho seco dum pinheiro novo pipilava transido de frio.
Além um melro, de bico amarelo, "negro, vibrante e luzidio", revolvia afincadamente com vigorosas bicadas e frenética canseira as folhas caídas das árvores, amontoadas e podres, para catar debaixo delas e pôr ao léu, os vermes e larvas que gulosamente ia devorando.
Atrás dos pequenos estudantes vinha um sacerdote. Alto e desempenado, depressa os alcançou a passos largos e destros. Era o pároco duma freguesia das redondezas que ia tomar parte na celebração de uns ofícios na igreja paroquial do local da escola. Levava no ombro direito a batina dobrada com o forro para fora e a fímbria para trás, e, no braço do mesmo lado, uma saquinha de veludo preto com borlas redondas da mesma côr nos cantos do fundo e nos cordões dos fechos. Para a identificar e não perder, as iniciais do seu nome numa das faces, bordadas com fios de lã verde, a ponto de cruz, garantiam a sua posse.
Transportava nela os paramentos próprios para os actos litúrgicos em que ia colaborar.
Rendia-lhe o andar. E, como os jovens interlocutores o queriam acompanhar para ouvirem e manterem a conversação que com eles entabolou, tinham de ir atrás dele, a maior parte do tempo, às corredourinhas, a rapelhar.
Quis saber das classes que frequentavam; inquiriu das dificuldades que lhes surgiam; e, abordando as disciplinas mais difíceis, ouvia, sugeria e comentava. Por fim, na oportunidade da conversa, enunciou deste modo as dificuldades da aprendizagem das quatro operações de aritmética:

-As de somar
fazem-se a cantar.

- E as de diminuir
fazem-se a rir

-E as de multiplicar? - inquiriram os moços interessados

- As de multiplicar
fazem-se a chorar.

- E então as de dividir?... - continuaram eles.

-Então com as de dividir
é largar os socos e botar a fugir...

E o melro que, no entretanto, acabara o seu lauto almoço,

(...)"lá foi, vibrante e jovial
a soltar por entre o arvoredo
lindas risadas de cristal"(...)



Rates, anos 60 
Joaquim D. Cancela

(citação de "O melro" G.J.)

.
 

terça-feira, 16 de março de 2010

No dia dos anos da Graça

A minha homenagem


TARDE

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.
.
Sophia de Melo Breyner Andresen

segunda-feira, 15 de março de 2010

Jean Ferrat


Morreu Jean Ferrat a 13 de Março passado, com 79 anos. Filho de judeu russo emigrado, viu com 11 anos , seu Pai ser deportado pelos nazis para Auschwitz-Birkenau onde morreu.
É salvo por militantes comunistas, tendo sido sempre simpatizante do Partido, mas nunca fez parte dele. Delimitou-se sempre dos métodos soviéticos, e as suas canções denunciaram sempre isso mesmo. Com "Camarade" denuncia e reprova a invasão de Praga pela Rússia. Com "Nuits & Broulliard" condena os horrores da deportação durante a guerra. Uma e outra, foram proibidas de passarem nas Emissoras.
Com ele, desaparece o último dos compositores e intérpretes, da era da canção francesa de intervenção.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DOURO


fotos de Mariano Pires

Escolher o Douro entre as sete maravilhas naturais de Portugal, é por assim dizer, uma obrigação

terça-feira, 2 de março de 2010

Sinais de Fogo

Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projecto romanesco de grande dimensão cuja designação genérica seria MONTE CATIVO, objectivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do séculoXX, SINAIS DE FOGO, de uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.
Recentemente revisto e em nova edição.

XIV cap.

(...)Don Juan quebrou o constrangimento, dizendo: - Porque o amor é cego, e só quando se satisfaz é que vê...até à primeira ocasião.
Mas meu Tio mergulhara em melancolia: - Não, não é. O amor não é cego, nós é que somos cegos para ele. A gente olha e não vê. E, quando vê, já passou a ocasião. Tanto faz que seja, porque tivemos alguém que julgávamos que queríamos, como porque não tivemos quem só depois percebemos que afinal a gente queria. E o pior ainda não é isso. O pior é a gente, mais tarde, saber que nos era indiferente alguém que julgámos desejar muito. Vejam o que aconteceu comigo ... Eu não fiz a carreira que sempre tinha sonhado. E desespero-me com isso. Mas, se tivesse feito, se calhar desesperava-me com ela, porque não tenho jeito nenhum para a vida militar que era a minha. Eu estive prisioneiro na Alemanha e fugi para a Holanda, com uma mulher que me deu todo o amor de que era capaz. Também eu lho dei. E depois, quando saí da Holanda para voltar, foi muito menos para voltar que para fugir dela. Nessa altura, conheci esta - e fez de cabeça um movimento que indicava a minha tia - que de resto eu já conhecia. E casei com ela. E gostava dela. Mas sempre ela me lembrava a outra. Das duas uma, ou casei com ela porque ela me lembrava a outra e por isso mesmo, de cada vez que a olhava, me apetecia tornar a escapar, ou casei com ela para escapar da outra, e acabei não escapando de nenhuma. Há ainda uma outra hipótese. É eu ter casado com esta pela vaidade de casar com uma das filhas da Madame Simões, da rica e celebrada Madame Simões, quando me queria convencer e a toda a gente de que a minha vida não tinha acabado, a minha carreira não estava encerrada. Porque eu era um inválido de guerra. Mas o mais certo é que, desconfiado de que não tinha carreira nenhuma, julguei que casava com o dinheiro dela. Depois nasceu o meu filho... Eu já lhe contei do meu filho, não contei? (...)


XLIII cap.

Acordei com uma límpida claridade a entrar pelas janelas cujas portadas eu me esquecera de fechar. Mas o que me acordara era um burburinho que eu ouvia lá dentro, agitação, falácia pela casa adiante. Era cedo ainda, oito horas. Mas sentia-me repousado, bem disposto, e reagi com curiosidade. Que seria? Levantei-me, fui ver. Minha Mãe andava de um lado para o outro no corredor, dava ordens à criada, que fosse à mercearia já, já, antes que ela fechasse, se é que tinha aberto, trouxesse batatas, bacalhau, arroz, e sal, que não se esquecesse do sal. A criada aprestava-se para sair, voltava atrás para acrescentar na memória mais uma recomendação, mais um nome na lista. Meu pai só dizia que era preciso calma, não se ouvia nada, seria boato, era preciso saber primeiro o que acontecera. Foi o que perguntei. A resposta veio dramática da minha mãe: o padeiro trouxera a novidade, tinha dito que houvera uma revolução. Meu pai comentou que, se tinha havido, já não havia, visto que tudo estava sossegado. A criada parecia espavorida com a ideia de uma revolução, mas ansiosa por ir à rua, a pretexto de mercearias, para saber do que se tratava. Minha mãe, às observações de meu pai, respondia: - Já não se lembrava do que uma revolução era? Não se lembrava de como tudo fechava por causa dos assaltos às lojas? E daquela vez que tinham ficado dias sem ter onde comprar nada? Ele respondia que, ora essa, dessa vez, com tiros e tudo na rua, o merceeiro nunca deixara de mandar o pobre do marçano a saber se era preciso alguma coisa, a trazer as compras.
- Mas que foi que o padeiro disse?
- Que houve uma revolução esta noite.
- Aonde?
- Aqui em Lisboa! - e minha mãe acrescentou: - Eu estava mesmo à espera que isso acontecesse qualquer dia. Já estavam cansados de paz e sossego, é o que é. E agora vai ser o mesmo inferno de dantes.
- Mas não sabemos o que aconteceu realmente, e está tudo tão calmo, não se ouve nada, será um boato. Ou a coisa não foi séria - dizia o meu pai.
- Claro que foi séria! Essas coisas são sempre muito sérias. Daqui de casa não sai ninguém - e minha mãe fitava-me e a meu pai - que eu não quero ficar numa aflição, e sozinha aqui, sem um homem em casa. Deus me livre.
- Tu estás doida? Então não hei-de ir para o emprego?
A criada, à porta, hesitava. Minha mãe dardejou uma ordem:
- Vá lá à mercearia, e de caminho pergunte o que é que houve
- e ela saiu.
Meu pai disse: - O melhor é eu telefonar para o escritório, a saber o que se passou, o que é que há.
O telefone naquele tempo, na maior parte das casas, era um imponente bibelô preto que ninguém usava senão em emergências extremas. O telefone só tocava, ou só era levantado do gancho, em correlação necessária com momentosos eventos.
- Isso, telefona, pergunta para lá - apoiou minha mãe, e em procissão seguimos atrás dele em direcção ao objecto, no fundo do corredor, na esquina para a sala de jantar, sobre uma peanha de que pendia um napperon branco que mais fazia ressaltar a nobre dignidade do monstrinho negro.
Quando meu pai falou, era evidente que tudo corria normalmente no escritório, apesar da excitação que se sentia que o telefone estava a transmitir e que ele pontuava de movimentos afirmativos de cabeça e de alguns ahs intercalados. Pousando o auscultador no gancho, meu pai deixou correr uns instantes, saboreando a solenidade da expectativa, e depois resumiu o que ouvira: - Parece que a Armada se revoltou, e alguns navios iam pelo rio abaixo, e os fortes meteram-nos no fundo. Mas não aconteceu mais nada.O governo domina a situação, já acabou tudo.
- Ora... - comentou minha mãe - isso é sempre o que os governos dizem. O melhor é esperar até à manhã, e, se não houver tiroteio entretanto, é porque então é verdade.
Não me contive: - Mas também houve este tiroteio agora, e não se ouviu nada cá em casa...
Minha mãe ia responder-me asperamente quando a criada voltou afogueada de notícias: - Ai minha senhora, lá na mercearia estava um ror de gente (Vêem? - triunfou minha mãe para meu pai) e diz que houve uma revolução e que já acabou mas não se sabe se acabou ou não porque pode rebentar outra coisa e que foram uns navios da guerra (- De guerra - emendou minha mãe) que desataram aos tiros e mataram os oficiais todos e depois foram ao fundo porque o governo mandou que fossem metidos ao fundo e os fortes foi que os meteram ao fundo e agora não se sabe mais nada e parece que está tudo quieto. Minha senhora, as batatas subiram, e o bacalhau e o arroz também, e o senhor Joaquim(era o dono da mercearia) diz que podem faltar e por isso é mais caro.
- Estamos como dantes - comentou minha mãe - sempre que lhe cheirava a revolução esse homem subia o preço de tudo. É mau sinal.
- Vou mas é para o escritório, que já estou atrasado - disse o meu pai.
- Não, não vais,que eu não quero ficar sozinha numa inquietação destas.
- O rapaz está aí.
- Quando é que ele parou em casa alguma vez? Assim que estiver arranjado, sai-me pela porta fora, que não há quem o agarre.
- Bem, até logo. Depois eu telefono - e foi saindo com minha mãe a clamar no patamar da escada: uma falta de juizo e de prudência, e ela abandonada à sua aflição.
Fechada a porta, minha mãe voltou-se para mim: - Tu tens alguma coisa que ver com isto? - e a criada fitava-me com ar pasmado.(...)
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in Sinais de Fogo
Jorge de Sena