segunda-feira, 15 de março de 2010

Jean Ferrat


Morreu Jean Ferrat a 13 de Março passado, com 79 anos. Filho de judeu russo emigrado, viu com 11 anos , seu Pai ser deportado pelos nazis para Auschwitz-Birkenau onde morreu.
É salvo por militantes comunistas, tendo sido sempre simpatizante do Partido, mas nunca fez parte dele. Delimitou-se sempre dos métodos soviéticos, e as suas canções denunciaram sempre isso mesmo. Com "Camarade" denuncia e reprova a invasão de Praga pela Rússia. Com "Nuits & Broulliard" condena os horrores da deportação durante a guerra. Uma e outra, foram proibidas de passarem nas Emissoras.
Com ele, desaparece o último dos compositores e intérpretes, da era da canção francesa de intervenção.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DOURO


fotos de Mariano Pires

Escolher o Douro entre as sete maravilhas naturais de Portugal, é por assim dizer, uma obrigação

terça-feira, 2 de março de 2010

Sinais de Fogo

Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projecto romanesco de grande dimensão cuja designação genérica seria MONTE CATIVO, objectivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do séculoXX, SINAIS DE FOGO, de uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.
Recentemente revisto e em nova edição.

XIV cap.

(...)Don Juan quebrou o constrangimento, dizendo: - Porque o amor é cego, e só quando se satisfaz é que vê...até à primeira ocasião.
Mas meu Tio mergulhara em melancolia: - Não, não é. O amor não é cego, nós é que somos cegos para ele. A gente olha e não vê. E, quando vê, já passou a ocasião. Tanto faz que seja, porque tivemos alguém que julgávamos que queríamos, como porque não tivemos quem só depois percebemos que afinal a gente queria. E o pior ainda não é isso. O pior é a gente, mais tarde, saber que nos era indiferente alguém que julgámos desejar muito. Vejam o que aconteceu comigo ... Eu não fiz a carreira que sempre tinha sonhado. E desespero-me com isso. Mas, se tivesse feito, se calhar desesperava-me com ela, porque não tenho jeito nenhum para a vida militar que era a minha. Eu estive prisioneiro na Alemanha e fugi para a Holanda, com uma mulher que me deu todo o amor de que era capaz. Também eu lho dei. E depois, quando saí da Holanda para voltar, foi muito menos para voltar que para fugir dela. Nessa altura, conheci esta - e fez de cabeça um movimento que indicava a minha tia - que de resto eu já conhecia. E casei com ela. E gostava dela. Mas sempre ela me lembrava a outra. Das duas uma, ou casei com ela porque ela me lembrava a outra e por isso mesmo, de cada vez que a olhava, me apetecia tornar a escapar, ou casei com ela para escapar da outra, e acabei não escapando de nenhuma. Há ainda uma outra hipótese. É eu ter casado com esta pela vaidade de casar com uma das filhas da Madame Simões, da rica e celebrada Madame Simões, quando me queria convencer e a toda a gente de que a minha vida não tinha acabado, a minha carreira não estava encerrada. Porque eu era um inválido de guerra. Mas o mais certo é que, desconfiado de que não tinha carreira nenhuma, julguei que casava com o dinheiro dela. Depois nasceu o meu filho... Eu já lhe contei do meu filho, não contei? (...)


XLIII cap.

Acordei com uma límpida claridade a entrar pelas janelas cujas portadas eu me esquecera de fechar. Mas o que me acordara era um burburinho que eu ouvia lá dentro, agitação, falácia pela casa adiante. Era cedo ainda, oito horas. Mas sentia-me repousado, bem disposto, e reagi com curiosidade. Que seria? Levantei-me, fui ver. Minha Mãe andava de um lado para o outro no corredor, dava ordens à criada, que fosse à mercearia já, já, antes que ela fechasse, se é que tinha aberto, trouxesse batatas, bacalhau, arroz, e sal, que não se esquecesse do sal. A criada aprestava-se para sair, voltava atrás para acrescentar na memória mais uma recomendação, mais um nome na lista. Meu pai só dizia que era preciso calma, não se ouvia nada, seria boato, era preciso saber primeiro o que acontecera. Foi o que perguntei. A resposta veio dramática da minha mãe: o padeiro trouxera a novidade, tinha dito que houvera uma revolução. Meu pai comentou que, se tinha havido, já não havia, visto que tudo estava sossegado. A criada parecia espavorida com a ideia de uma revolução, mas ansiosa por ir à rua, a pretexto de mercearias, para saber do que se tratava. Minha mãe, às observações de meu pai, respondia: - Já não se lembrava do que uma revolução era? Não se lembrava de como tudo fechava por causa dos assaltos às lojas? E daquela vez que tinham ficado dias sem ter onde comprar nada? Ele respondia que, ora essa, dessa vez, com tiros e tudo na rua, o merceeiro nunca deixara de mandar o pobre do marçano a saber se era preciso alguma coisa, a trazer as compras.
- Mas que foi que o padeiro disse?
- Que houve uma revolução esta noite.
- Aonde?
- Aqui em Lisboa! - e minha mãe acrescentou: - Eu estava mesmo à espera que isso acontecesse qualquer dia. Já estavam cansados de paz e sossego, é o que é. E agora vai ser o mesmo inferno de dantes.
- Mas não sabemos o que aconteceu realmente, e está tudo tão calmo, não se ouve nada, será um boato. Ou a coisa não foi séria - dizia o meu pai.
- Claro que foi séria! Essas coisas são sempre muito sérias. Daqui de casa não sai ninguém - e minha mãe fitava-me e a meu pai - que eu não quero ficar numa aflição, e sozinha aqui, sem um homem em casa. Deus me livre.
- Tu estás doida? Então não hei-de ir para o emprego?
A criada, à porta, hesitava. Minha mãe dardejou uma ordem:
- Vá lá à mercearia, e de caminho pergunte o que é que houve
- e ela saiu.
Meu pai disse: - O melhor é eu telefonar para o escritório, a saber o que se passou, o que é que há.
O telefone naquele tempo, na maior parte das casas, era um imponente bibelô preto que ninguém usava senão em emergências extremas. O telefone só tocava, ou só era levantado do gancho, em correlação necessária com momentosos eventos.
- Isso, telefona, pergunta para lá - apoiou minha mãe, e em procissão seguimos atrás dele em direcção ao objecto, no fundo do corredor, na esquina para a sala de jantar, sobre uma peanha de que pendia um napperon branco que mais fazia ressaltar a nobre dignidade do monstrinho negro.
Quando meu pai falou, era evidente que tudo corria normalmente no escritório, apesar da excitação que se sentia que o telefone estava a transmitir e que ele pontuava de movimentos afirmativos de cabeça e de alguns ahs intercalados. Pousando o auscultador no gancho, meu pai deixou correr uns instantes, saboreando a solenidade da expectativa, e depois resumiu o que ouvira: - Parece que a Armada se revoltou, e alguns navios iam pelo rio abaixo, e os fortes meteram-nos no fundo. Mas não aconteceu mais nada.O governo domina a situação, já acabou tudo.
- Ora... - comentou minha mãe - isso é sempre o que os governos dizem. O melhor é esperar até à manhã, e, se não houver tiroteio entretanto, é porque então é verdade.
Não me contive: - Mas também houve este tiroteio agora, e não se ouviu nada cá em casa...
Minha mãe ia responder-me asperamente quando a criada voltou afogueada de notícias: - Ai minha senhora, lá na mercearia estava um ror de gente (Vêem? - triunfou minha mãe para meu pai) e diz que houve uma revolução e que já acabou mas não se sabe se acabou ou não porque pode rebentar outra coisa e que foram uns navios da guerra (- De guerra - emendou minha mãe) que desataram aos tiros e mataram os oficiais todos e depois foram ao fundo porque o governo mandou que fossem metidos ao fundo e os fortes foi que os meteram ao fundo e agora não se sabe mais nada e parece que está tudo quieto. Minha senhora, as batatas subiram, e o bacalhau e o arroz também, e o senhor Joaquim(era o dono da mercearia) diz que podem faltar e por isso é mais caro.
- Estamos como dantes - comentou minha mãe - sempre que lhe cheirava a revolução esse homem subia o preço de tudo. É mau sinal.
- Vou mas é para o escritório, que já estou atrasado - disse o meu pai.
- Não, não vais,que eu não quero ficar sozinha numa inquietação destas.
- O rapaz está aí.
- Quando é que ele parou em casa alguma vez? Assim que estiver arranjado, sai-me pela porta fora, que não há quem o agarre.
- Bem, até logo. Depois eu telefono - e foi saindo com minha mãe a clamar no patamar da escada: uma falta de juizo e de prudência, e ela abandonada à sua aflição.
Fechada a porta, minha mãe voltou-se para mim: - Tu tens alguma coisa que ver com isto? - e a criada fitava-me com ar pasmado.(...)
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in Sinais de Fogo
Jorge de Sena

segunda-feira, 1 de março de 2010

Quadras e Ditos II

Colecção obtida em azulejos, pratos, anúncios, etiquetas, recolhida por meu Pai

Tulipas negras e brancas com amores-perfeitos num jardim de Gent


As estrelas do Céu correm,
Correm todas numa linha
Assim corressem os beijos
Da tua boca para a minha

Quem me dera ser a lágrima
Para em teus olhos nascer;
Resvalar por tuas faces,
Vir em teus lábios morrer.

Quem disser que o preto é triste
Hei-de dizer-lhe que mente;
Meu amor tem olhos pretos
Alegres p'ra toda a gente.


Com Peugeot na estrada
A viagem não custa nada.

Depois do almoço ou jantar
Só "Evic" deve fumar.

Você perdeu o comboio?
E perdeu também o dia.
Se você usasse um OLMA,
Nunca mais o perderia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

viagens

catedral de Antuérpia(pormenor)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Contrastes


O inverno em Sta Maria do Bouro






terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Migalhas que ficaram V


aldeia portuguesa



O Tio Bento das Sacas


A sua morada era uma dependência devoluta duma casa situada na margem da estrada, no centro da povoação. O seu ofício era o de fazer paus para socos. Convivia com os transeuntes que lhe passavam ao rés-da porta, ali negociava com os seus fornecedores, e com todos cavaqueava, quer nas horas de folga quer nas de trabalho.
Mas vivia só. E era gago; sobretudo quando era assaltado por emoções fortes.
Na habitação que ocupava tinha todo o seu mundo. No meio dela situava-se o cepo sobre que trabalhava. Ao lado, o lar onde cozinhava as refeições, a mesa onde comia, e a um canto, a cama onde dormia.
E ao mesmo tempo que trabalhava, ia fazendo a comida.
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Sentado em frente do cepo e rodeado de cavacos e aparas de amieiro que se amontoam à sua volta, ele vai debouçando com a enxó o taco de madeira que quer transformar em pau de tamanco. A enxó desbasta cavaco a cavaco, corta, escava, afunda, e começam a aparecer os contornos da obra que se pretende obter. Agora é o tacão a sobressair. Uns golpes transversais e longitudinais vibrados com mais energia, e ele surge, destaca-se e afila-se. Depois vem o formão afeiçoar as formas, delinear as curvas, abrir sulcos.
E, antes de entrar em nova fase de trabalhos, examina a obra, vira-a e revira-a em todas as direcções.
Então, apoiando o cabo do formão na axila do braço direito, com a mão do mesmo lado empunha a lâmina. O formão começa a desfiar aparas. Impelido pela força que sobre ele exerce o ombro direito, ele vai escavando e dando a forma desejada ao pau que a mão esquerda segura e coloca na posição conveniente.
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O pensamento de Ti-Bento assim preso do trabalho que está a realizar, não se dissocia contudo, da lembrança do seu pequeno amigo que com ele conversava, o distraía, e lhe suavizava a monotonia de horas inteiras a fazer paus para tamancos.
- O João foi p'rá Póvoa. Foi p'ra caixeiro.
Ti-Bento ouviu em silêncio a notícia e, sentiu logo o travor amargo que ela lhe causara.
O formão continuava a rebaixar e a abrir sulcos; as aparas que o gume ia desprendendo saiam agora mais finas, leves, como papel. Caídas no lume, eram uma lambedela das chamas. O tacão estava pronto. A base para o metatarso e dedos estava a afeiçoar-se e a destacar-se. Seguir-se-ia depois a curva enfranque para a arcada plantar. As aparas continuavam a desfiar-se diante do formão como pétalas de camélias desbotadas.
O panelo, esse, lá continuava a ferver. De quando em quando uma baforada de vapor levantava o testo e expandia-se no espaço.
Ti-Bento quedou-se a contemplar, absorto, o movimento de sobe e desce do testo e meditava; não como o pequeno Papin na força expansiva e elasticidade dos gases, mas na ausência do João. E, de braços cruzados sobre o regaço detendo na mão esquerda o pau novo do tamanco e, na direita, o formão com que o cavacara, desabafou num saudoso enleio:
-Oo ... ra basta, que ... o João ... foi p'ra taixeiro!
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De Ti-Bento o coração estava decíduo. Estigmatizara-o a morte da mulher. Ferira-o. A solidão apoderara-se dele e privara-o do afago duma carícia que ameniza e consola, da frescura dum sorriso que suaviza e alegra, do calor duma palavra que conforta e anima, da magia dum olhar que enternece e encanta.
Para ele a vida consistia apenas em fazer paus de tamancos e vendê-los no mercado, às quartas - feiras, em Famalicão. Nesses dias para lá seguia com a mercadoria, montava a tripeça e atendia os fregueses.
Mas, no meio destas sombras que desfiguravam e escureciam a sua existência, dealbou uma luz, esperançosa e redentora. O seu espírito acarinhou-a e recolheu-a como uma fagueira esperança.
A senhora Ana Parranda que o marido abandonara há muitos anos, também ia à feira vender carduço. Eram companheiros de viagem e de feira. Para cá e para lá. Conversavam. Como ele, ela sentia-se só, rodeada de tristezas e amarguras. Como ele, ela sofria a friura da existência solitária. E da convivência entre os dois, irrompeu em labaredas um clarão que os estonteou e seduziu. Poderiam, então casar!...
E Ti-Bento, enamorado com essa sedutora ideia, tentou alimentar uma ilusória esperança. Tão ilusória, quão efémera!...
- Mas ela é casada, Ti-Bento.
Ti-Bento sacou o lenço tabaqueiro, para se assoar e, tirou do bolso do colete a caixa do rapé. Com ela aberta na mão esquerda e os dedos polegar e indicador da direita dentro dela, para tirar a pitada, fixou a nesga de céu azul por baixo da padieira da porta e, num radioso anseio, como solução segura:
-Não ... que agora, ... há o debotche ! ...(1)

Rates,Junho de 1968
Joaquim D. Cancela
(1) divórcio