Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Evadir-me, esquecer-me
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Albert Camus
O Estranjeiro (extracto)
(...)Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas se de facto ela queria casar, estava bem. Quis então saber se eu a amava. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que talvez a não amasse."Nesse caso, porquê casar comigo?", disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Maria observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi:"Não". Maria calou-se durante uns instantes e olhou-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceitado uma proposta semelhante. Respondi: "Possivelmente". Perguntou então de si para si se gostaria de mim, mas sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, murmurou que era uma pessoa estranha, que gostava de mim decerto por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-me o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim, logo que ela quisesse. Falei-lhe então na proposta do patrão e Maria disse-me que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que lá vivera durante algum tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi: "É suja. Há pombas e pátios escuros. As pessoas têm a pele muito branca".
Depois passeámos, escolhendo as grandes ruas.
As mulheres eram bonitas e perguntei a Maria se ela achava o mesmo. Disse que sim, e que me compreendia. Depois calámo-nos. Queria no entanto que ela ficasse comigo e disse-lhe que poderíamos jantar juntos no Celeste. Maria replicou que gostava muito, mas que tinha que fazer. Estávamos ao pé de minha casa e eu disse-lhe adeus. Ela olhou para mim: "Não queres saber o que é que tenho que fazer?" Eu queria, mas não me lembrara de lho perguntar e era por isso que estava com um ar de censura. Diante do meu ar embaraçado, voltou então a rir e, para me estender a boca, teve para mim um movimento de todo o corpo.(...)
Sartre, sobre este livro, disse:(...) "O estrangeiro que ele quer pintar é justamente um desses terríveis inocentes que constituem o escândalo de uma sociedade porque lhe não aceitam as regras do jogo. Vive entre os estrangeiros, mas para eles é também um estrangeiro. Por isso alguns hão-de amá-lo, como Maria, sua amante, que lhe dá importância " porque é bizarro"; e outras detesta-lo-ão por isso, como aquela multidão do tribunal, cujo ódio ele sente de súbito subir contra si. E nós próprios que, abrindo o livro, ainda não estamos familiarizados com o sentimento do absurdo, procuraríamos em vão julgá-lo segundo as nossas normas habituais: ele é um estrangeiro também para nós. Desse modo, o choque que o leitor sentiu ao abrir o livro, quando leu: "Pensei que passara mais um domingo, que a Mãe já fora a enterrar, que ia regressar ao meu trabalho e que, no fim de contas, continuava tudo na mesma", era voluntário: é o resultado do primeiro encontro do leitor com o absurdo. Mas o leitor esperava talvez que, levando por diante a leitura da obra, veria dissipar-se o seu mal estar, que tudo ficaria a pouco e pouco esclarecido, baseado em razão, explicado. A sua esperança ficou desiludida: O Estrangeiro não é um livro que explica: o homem absurdo não explica, descreve; não é também um livro que prove. Camus sòmente propõe e não se inquieta com justificar o que, por princípio, é injustificável. (...)
Estes dois pequenos extractos, são simultâneamente uma pequenina homenagem ao grande escritor que é Camus, mas também um espevitar de curiosidades àqueles que por uma qualquer razão o conheçam menos.
(...)Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas se de facto ela queria casar, estava bem. Quis então saber se eu a amava. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que talvez a não amasse."Nesse caso, porquê casar comigo?", disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Maria observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi:"Não". Maria calou-se durante uns instantes e olhou-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceitado uma proposta semelhante. Respondi: "Possivelmente". Perguntou então de si para si se gostaria de mim, mas sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, murmurou que era uma pessoa estranha, que gostava de mim decerto por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-me o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim, logo que ela quisesse. Falei-lhe então na proposta do patrão e Maria disse-me que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que lá vivera durante algum tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi: "É suja. Há pombas e pátios escuros. As pessoas têm a pele muito branca".
Depois passeámos, escolhendo as grandes ruas.
As mulheres eram bonitas e perguntei a Maria se ela achava o mesmo. Disse que sim, e que me compreendia. Depois calámo-nos. Queria no entanto que ela ficasse comigo e disse-lhe que poderíamos jantar juntos no Celeste. Maria replicou que gostava muito, mas que tinha que fazer. Estávamos ao pé de minha casa e eu disse-lhe adeus. Ela olhou para mim: "Não queres saber o que é que tenho que fazer?" Eu queria, mas não me lembrara de lho perguntar e era por isso que estava com um ar de censura. Diante do meu ar embaraçado, voltou então a rir e, para me estender a boca, teve para mim um movimento de todo o corpo.(...)
Sartre, sobre este livro, disse:(...) "O estrangeiro que ele quer pintar é justamente um desses terríveis inocentes que constituem o escândalo de uma sociedade porque lhe não aceitam as regras do jogo. Vive entre os estrangeiros, mas para eles é também um estrangeiro. Por isso alguns hão-de amá-lo, como Maria, sua amante, que lhe dá importância " porque é bizarro"; e outras detesta-lo-ão por isso, como aquela multidão do tribunal, cujo ódio ele sente de súbito subir contra si. E nós próprios que, abrindo o livro, ainda não estamos familiarizados com o sentimento do absurdo, procuraríamos em vão julgá-lo segundo as nossas normas habituais: ele é um estrangeiro também para nós. Desse modo, o choque que o leitor sentiu ao abrir o livro, quando leu: "Pensei que passara mais um domingo, que a Mãe já fora a enterrar, que ia regressar ao meu trabalho e que, no fim de contas, continuava tudo na mesma", era voluntário: é o resultado do primeiro encontro do leitor com o absurdo. Mas o leitor esperava talvez que, levando por diante a leitura da obra, veria dissipar-se o seu mal estar, que tudo ficaria a pouco e pouco esclarecido, baseado em razão, explicado. A sua esperança ficou desiludida: O Estrangeiro não é um livro que explica: o homem absurdo não explica, descreve; não é também um livro que prove. Camus sòmente propõe e não se inquieta com justificar o que, por princípio, é injustificável. (...)
Estes dois pequenos extractos, são simultâneamente uma pequenina homenagem ao grande escritor que é Camus, mas também um espevitar de curiosidades àqueles que por uma qualquer razão o conheçam menos.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Tarde
Tarde lluviosa en gris cansado,
y sigue el caminar.
Los árboles marchitos.
Mi cuarto, solitário.
Y los retratos viejos
y el libro sin cortar...
Chorrea la tristeza por los muebles
y por mi alma.
Quizá,
no tenga para mi Naturaleza
el pecho de cristal.
Y me duele la carne del corazón
y la carne del alma.
Y al hablar,
se quedan mis palabras en el aire
como corchos sobre agua.
Solo por tus ojos
sufro yo este mal,
tristezas de antaño
y las que vendrán.
Tarde lluviosa en gris cansado,
y sigue el caminar .
.
Garcia Lorca,1919
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
A Grande Final
Estes são os burros concorrentes do tão disputado Concurso de Natal 2009 da Barbearia do Senhor Luís. Mesmo sem ter pedido permissão para isso, atrevo-me a publicá-los porque considero uma colecção muito gira.É claro que o meu burro ficou em primeiro lugar, ou não fosse o mais elegante e bem parecido. Mas o tão badalado prémio fantástico anunciado, não sei por onde anda.
Mas há mais. O Magnífico Júri, atropelando as regras mais elementares destes concursos, arranjou maneira de todos ficarem em primeiro lugar!... É claro que assim não há prémios que cheguem...
Mas eu não sou invejosa e, um primeiro prémio, mesmo partilhado, é qualquer coisa de muito importante e dá muita categoria!
Foi a primeira vez que me meti nestas confusões, e diverti-me. Aguardo o próximo, que por mim poderia ser para o Carnaval; só que o Sr. Barbeiro parece que se cansou...
Renovo os votos de um óptimo Natal, e quanto ao Ano Novo, logo se verá...mas palpita-me que vai ser um nadinha melhor do que o que tem sido. Já vai sendo tempo.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
CONCURSO 2009 OS BURROS DO PRESÉPIO
para a Barbearia do Senhor Luís

Este burro apresenta-se elegante e escovado,vaidoso até, de frondosas sobrancelhas e focinho alvo, a pedir mesmo que o deixem figurar no Presépio; e promete bafejar com hálito fresco e bem cheiroso o recém-nascido Menino.
É mesmo para ganhar.
Sr. Barbeiro, espero ter sorte. Convidou-me, e eu cá estou.

Este burro apresenta-se elegante e escovado,vaidoso até, de frondosas sobrancelhas e focinho alvo, a pedir mesmo que o deixem figurar no Presépio; e promete bafejar com hálito fresco e bem cheiroso o recém-nascido Menino.
É mesmo para ganhar.
Sr. Barbeiro, espero ter sorte. Convidou-me, e eu cá estou.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Recordar Ary dos Santos

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.
Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'
terça-feira, 10 de novembro de 2009
No dia de anos do Jorge
A FLOR TEM LINGUAGEM DE QUE A SUA SEMENTE NÃO FALA
A flor tem linguagem de que a sua semente não fala
A raiz não parece dar aquele fruto
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem
Retirada a linguagem
A semente é igual a flor
A flor igual a fruto
Fruto igual a semente
Destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.
Almada Negreiros
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