quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Grande Final

Estes são os burros concorrentes do tão disputado Concurso de Natal 2009 da Barbearia do Senhor Luís. Mesmo sem ter pedido permissão para isso, atrevo-me a publicá-los porque considero uma colecção muito gira.
É claro que o meu burro ficou em primeiro lugar, ou não fosse o mais elegante e bem parecido. Mas o tão badalado prémio fantástico anunciado, não sei por onde anda.
Mas há mais. O Magnífico Júri, atropelando as regras mais elementares destes concursos, arranjou maneira de todos ficarem em primeiro lugar!... É claro que assim não há prémios que cheguem...
Mas eu não sou invejosa e, um primeiro prémio, mesmo partilhado, é qualquer coisa de muito importante e dá muita categoria!
Foi a primeira vez que me meti nestas confusões, e diverti-me. Aguardo o próximo, que por mim poderia ser para o Carnaval; só que o Sr. Barbeiro parece que se cansou...
Renovo os votos de um óptimo Natal, e quanto ao Ano Novo, logo se verá...mas palpita-me que vai ser um nadinha melhor do que o que tem sido. Já vai sendo tempo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

CONCURSO 2009 OS BURROS DO PRESÉPIO

para a Barbearia do Senhor Luís


Este burro apresenta-se elegante e escovado,vaidoso até, de frondosas sobrancelhas e focinho alvo, a pedir mesmo que o deixem figurar no Presépio; e promete bafejar com hálito fresco e bem cheiroso o recém-nascido Menino.
É mesmo para ganhar.
Sr. Barbeiro, espero ter sorte. Convidou-me, e eu cá estou.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Recordar Ary dos Santos





Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

terça-feira, 10 de novembro de 2009

No dia de anos do Jorge

foto de C.C.


A FLOR TEM LINGUAGEM DE QUE A SUA SEMENTE NÃO FALA


A flor tem linguagem de que a sua semente não fala
A raiz não parece dar aquele fruto
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem
Retirada a linguagem
A semente é igual a flor
A flor igual a fruto
Fruto igual a semente
Destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.

Almada Negreiros

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As minhas histórias II

foto de C.C. Nascente do Alviela

A Nascente do Alviela e os Morcegos


A nascente do ALVIELA é uma das mais profundas do mundo e está localmente associada com um complexo de grutas que representa o fenómeno cársico fluvial mais significativo de Portugal. Situada no concelho de Alcanena, é um local que se recomenda visitar.
Foi o que fiz. E ao penetrar no «santuário» dos morcegos cavernícolas que lá existe,( o Quiroptário) falou-se das velhas histórias que ao longo dos tempos se contam sobre os morcegos. E a minha memória imediatamente me fez lembrar, o morcego que durante as noites quentes de verão, na minha infância, entrava pela janela do quarto que era obrigatório manter aberta.
O morcego em voo rápido, percorria o quarto e saía.
-
O morcego é um «rato com asas», mas é bom para comer os «trompeteiros», não faz mal. Dizia-me a Ana, empregada lá de casa desde os meus 3 anos e que lá permaneceu.........Ela sabia coisas!...e eu acreditava, mas sempre tapava a cara com a dobra do lençol, espreitando com os olhos bem abertos até o ver sair.
No quiroptário aprendi que os morcegos comem 600 mosquitos/minuto. Seria então por isso, que o tal morcego entrava e saía rápido.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

2 de Novembro

Hoje, dia 2 de Novembro, o meu Pai fazia anos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Migalhas que ficaram IV

fotografia de c.c.





O Tio Domingos Cereijeiro



O Tio Domingos Cereijeiro era um pobre jornaleiro que vivia na atraente encosta de Casais com a mulher e dois filhos. O homem viera lá das bandas do norte, e, o nome que constava nos registos oficiais, era Domingos Alves; do povo é que recebera a alcunha de Cereijeiro, que tanto o irritava.
De temperamento rude e áspero, ele reagia sempre com energia e, às vezes, até com violência, quando aos seus ouvidos soasse aquele nome que, para si considerava tão insultuoso e ofensivo. Uma frase, gesto ou alusão a título para ele tão pejorativo, tinha logo da sua parte uma advertência, que era uma ameaça, em voz de falsete como regougo de raposa aluada.
- O amigo trate bem, querendo...
De espírito aventureiro e seguindo as instruções do livro de S. Cipriano, que ouvira ler, meteu-se, ele e outros, a escavar solo e fraguedos no vizinho monte da Cividade, à procura de decantado tesouro que uma “moura encantada” avaramente ali escondera. Nada encontraram do que ambicionavam e esperavam recolher; mas puseram a descoberto restos de um Castro Romano que abandonaram por não serem esses tesouros o motivo da sua busca.
Notava-se-lhe no nariz um pequeno desvio que, a imaginação popular atribuía ao diabo, quando uma noite o tentou raptar, chegando mesmo a arrasta-lo da cama em que dormia até à cozinha, por lhe ter rescindido um pacto que com ele tivera. Valeu à vítima ter lançado mão de uma caixa de lumes-prontos, que se encontrava em cima da lareira e, ao fazer lume, acendendo um, o diabo terá fugido espavorido.
Soube-se mais tarde que a coisa resultara dum violento impacto com o nariz na nuca doutro parceiro, que se erguia ao mesmo tempo que ele se baixava numa volta do “jogo do sapato”.
Decorridos anos –bastantes anos – o mesmo parceiro, dominado por um forte ataque de fúria etílica, vibrando violento murro no nariz do pobre homem, atenuou-lhe a mazela.
=.=
O caminho para Casais virava à esquerda no lugar de Chãos, na esquina do campo da Tia Maria Rosária, e afundava-se adiante, a dois saltos de lebre, na Melroeira. De ribas altas e coberto de urgeirais e silvedos densos, parecia um túnel. Nas rampas altas sobressaiam, aqui e ali, as fibrilhas que o desprendimento de terras deixava descobertas.
Na bifurcação, numa chãzinha de terra silicosa batida pelo trânsito e lisa como uma eira, os rapazes, na volta da escola, assentavam arraiais para as suas actividades lúdicas. Uma fita de musgo verde-negro e relva, que os dentes afiados das ovelhas da Ti Rosária, avidamente retouçavam, quando vadiavam por aqueles sítios, orlava os bordos da encruzilhada.
=.=
Duma vez que os rapazes ali estacionavam, ocuparam-se uns a observar a marcha lenta de um cárabo que vagarosamente atravessava o caminho; outros foram aos cogumelos eduis, que os havia na devesa do Martins, para os comerem depois de assados nas brasas com sal; finalmente outros ficaram em competições desportivas.
-Vamos à luta?
E formou-se logo um círculo a presenciar a sessão de luta "greco-romana" que ia seguir-se.
Eis que um dos lutadores, querendo sair vitorioso da competição, engancha uma perna na do adversário para o derrubar.
- Não vale enganchar!...Não vale enganchar!... - clamaram os circunstantes a bater com o punho da mão direita na palma da esquerda e aos saltinhos, a pé junto, nas pontas dos pés. Ao mesmo tempo, um que se arvorara em árbitro, destacava-se a endireitar os contendores.
- Ai o menino!... Assim não vale!...
=.=
O Zé da Ana Rita frequentava a 1ª classe. Era um menino sossegado, tímido e delicado. Trajava à maruja, de calção azul até meia perna e blusa da mesma cor com pala a recobrir os ombros, com debrum branco.
O Manuel Póvoas, buliçoso e folgazão, tentou arrastá-lo também para uma luta; mas ele recusou-se e ia resistindo até ao limite das suas forças. Assim desafiado e consumido, já desesperava, quando assomou à boca da Melroeira o Ti Domingos Cereijeiro que se dirigia açodado para o trabalho da tarde. De joanetes salientes e pernas cambas, vinha descalço e em mangas de camisa, arregaçadas.Trazia na mão esquerda um serrote com os dentes para cima, e no ombro direito um machado com o ferro sobre a omoplata e o cabo para a frente.
Ao avistá-lo, luziu na mente da pobre criança uma esperança de protecção amiga contra as impertinentes arremetidas do irrequieto condiscípulo. Confiado na eficácia do auxílio que implorava, bradou em voz alta
- Estás quedo?... Anda que vem acolá o Ti Domingos Cereijeiro e ele diz-te como é!...
Ó Céus!... O que ele foi dizer!..?!
O homem que ouvira à distância o aflitivo, mas para ele injurioso apelo, rompe furibundo na direcção dos dois e, quando o reclamante supunha, radiante em seu íntimo, que ia ser libertado e protegido, sentiu na cabeça o duro martelar do manípulo do serrote como severo castigo do imprudente apelo.
- Quem é o Cereijeiro?... Quem é o Cereijeiro?... - bradava ele indignado, enquanto batia desalmadamente na cabeça da indefesa criança, que inutilmente procurava defender-se com as mãos, da imprevista e brutal agressão.
E, depois de ter impiedosamente zurzido aquela cabeça, fez-se aos jarretes.
Entretanto porém, uma impertinente perturbação começava a atormentar-lhe o espírito. Acossado por uma pontinha de remorso que lhe ia bordejando a consciência, acusando-lhe a rudeza e iniquidade do castigo, ele magicava em solilóquio surdo, a tentar defender-se:
-Olha cá, agora!... Um fedelho a insultar um homem!...Eh!... como se eu fosse da igualha dele!...
Mas, dos abismos da sua alma, iam, ao mesmo tempo, emergindo peculiares complacências que lá estavam guardadas.
-E daí...sim...- ia ele caindo em si -talvez o rapaz não tenha dito aquilo por zombaria...- Pois não...não disse.- Ele diz o que ouve... -E, então, a culpa não é dele; é dos outros; dos que ensinam esses e outros erros às crianças. -Esses, sim; esses é que são, em verdade, os únicos culpados.
E a infeliz criança, que não quisera entrar na competição para onde o seu amigo o forçava, ficou estarrecido, com as lágrimas nos olhos, a apalpar os "galos " na cabeça, com os dedos das mãos, pisados, e arrependido da errada opção que fizera.

Rates, Julho de 1970
Joaquim D. Cancela