sexta-feira, 9 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
de vez em quando é preciso gritar
UIVO de Ginsberg
para Carl Solomon
-fragmento-
“ Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contacto
celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram
anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,
que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes
alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos e publicarem
odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-
da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-
tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram [ ... ] ”.
sábado, 5 de setembro de 2009
Quinta das Lágrimas
fotografias de C.C.
(...)As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores.(...)
Lusíadas, canto III
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Recordar Zé Afonso

foto de last.fm
Utopia
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
Zé Afonso
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Migalhas que ficaram III

fotografia de Mariano Pires
Ti-Zé da Delfina
A Sra. Delfina exercia a profissão de recoveira. Todos os dias lá ia ela pelo caminho de Coucelos, abaixo, para fugir às calmarias de sol das estradas e encurtar distancias, de canastra escurecida pelo uso, na cabeça, até à Póvoa de Varzim para trazer e levar recados e encomendas para quem precisasse dos seus préstimos. E muitos pretendentes eram eles, por não haver na freguesia loja de coisas, das principais coisas necessárias à economia doméstica. Era uma onça de chá para este, um arrátel de sabão para aquele, um quartilho de azeite para outro... Recados para lá, recados para cá.O meu Tio materno, José Ferreira Júnior, era o Professor Oficial (Professor Régio como dantes se dizia). Todos os dias só desjejuava, antes das aulas, bebendo chá, infuso, acompanhado com finas fatias de molete. Por isso a minha Tia Francisca que o era por duplo título – afim e consanguíneo – havia que ter sempre provida dessa especiaria a latinha de o guardar. Esse encargo se tornava leve por ter ali ao pé, mesmo em frente e à mão de semear, a pessoa que acertadamente lhe resolvia o problema. Era só chegar à janela e chamar, porque a frente da residência escolar dava, depois do caminho, para as traseiras da casa da vizinha.-“ Ó Delfina...Delfina, amanhã traz-me uma onça de chá. Os pequenos vão aí levar-te o dinheiro”.E a Sra. Delfina que ouvia o recado e o arruído das crianças em tropel pelo quintal abaixo, assomava à varanda de pau que para ali dava e recebia delas o dinheiro da encomenda.O seu homem, o sr. Oliveira, ocupava a sua actividade num modesto negócio de madeiras que amanhava por suas mãos. Comprava uma árvore, carvalho, sobreiro, castanheiro, cerejeira... Tirava dela tudo o que pudesse ser utilizado na confecção ou reparação de alfaias agrícolas: umas cambas ou uns miúlos para umas rodas, um eixo para um rodeiro, uma cheda para um carro, umas relhas para um arado, um tornadouro para uma grade, umas aduelas para um pipo, uma tábua para uma escudela... Tudo ali se encontrava. O que não desse obra, dava lenha para vender; e da miuçalha enchia uma caniçada para vender aos padeiros da Póvoa nas feiras que em todas as quartas e sábados de cada semana ali se realizavam.Como adjuvante tinha ainda um pequeno negócio de tabacos.A sua casa era térrea e torre, conforme o acidentado do terreno. Térrea para as traseiras onde se situava o quintal, e torre para a frente, à margem do caminho das Regueiras, em plano inferior ao da Escola. Por duas janelas abertas na fachada para o vale do Este, ameno e viçoso, entra o sol logo que nasce até se esconder por trás dos cómoros que lhe ficam para o ocidente. Do rio ouve os uivos temerosos quando é tormenta, ou os murmúrios suaves e harmoniosos quando é bonança. No muro que veda o quintal abre-se em frente da escola uma porta com padieira de granito. Entre as janelas tinha uma tabuleta, um rectângulo traçado a preto na superfície branca, em que se lia: -Tabacos – de José Oliveira – Habilitado. Era o estanque de tabacos, que a Sra. Delfina nas suas recovagens diárias também não se esquecia de abastecer.Em cima duma mesa, enegrecida e carunchosa, dentro da sala melhor, ao lado da janela, estavam os tabacos; uns pobres cigarros “Kentukys”, lumes–prontos, de pau e de cera, e rapé para cheirar.
Naquele tempo era vulgaríssimo o uso do rapé; e usavam um grande lenço vermelho com barras brancas, era o lenço tabaqueiro. O rapé em pó, tomava-se com as pontas dos dedos polegar e indicador duma caixa tabaqueira, ou aspirando o pó por uma cânula que se introduzia no nariz.
Quem pretendesse alguns desses artigos, batia à porta do coberto, um portal de duas empenas com aldrabas de batente, e era servido por uma cesta suspensa de um cordel, que descia da janela com a mercadoria desejada e subia com a paga.A Ti–Delfina morreu. E o Ti-Zé ficando só, vendeu a casa e foi morar em Casais, numa casinha cercada de altos muros, que a Silvina do Padre ali tinha herdado do seu tio Padre Manuel Rodrigues Ferreira.À noite, depois da ceia, ouvia-se na vizinhança declamar em alta voz. Se no outro dia lhe perguntassem se estivera doente, ou tivera visitas àquela hora, respondia que era ele a rezar. E observando-se-lhe que para isso, não era preciso tamanha berraria, concluía com ingénua, mas sincera convicção:-“Ah! Não que sim...Mas a reza em coro é mais aceite”E lá foi acabando os seus dias, carregando com uma volumosa hérnia inguinal a bambolear dentro da maneira das calças como alforge de pobre mal cheio.
Joaquim D. Cancela
domingo, 9 de agosto de 2009
As minhas histórias I
Érasme Quellin-retrato de menina
(museu Groeninge, Bruges)
O grão de milho
No fim de tarde de um Outono quente o milho estendia-se na eira a secar, mas, para não apanhar o relento da noite, arrecadava-se para o varandão ou, depois de junto no meio da eira, cobria-se com panais de linho.
Nesse dia, era essa a tarefa da Ana, enquanto eu no outro canto da eira brincava a encher os ouvidos de grãos de milho para experimentar a sensação de não ouvir. Mas não conseguia.
-Chame por mim, a ver se ouço!...Tantas vezes isto se repetiu que, a Ana veio ver, o que se estava a passar.
-Oh menina!... Qu’está a fazer?!
O pânico apoderou-se da cara dela; a aflição foi tanta que logo me convenci que o disparate era grande. De imediato me esvaziou os ouvidos mas, um grão teimou em não sair.
-E agora?
-Vou ter que dizer à Senhora.
- Para que fez isso?
-E agora, se não sai?
Nesse atropelo de perguntas sem respostas, a ansiedade começou a apoderar-se de mim.
-Oh minha senhora , a menina tem um “graeiro” de milho no ouvido!...A Mãe olhou e pareceu-lhe que o meu Pai resolveria o problema.
Foi-se acender o candeeiro de petróleo, o maior.
Estávamos em plena guerra mundial, com racionamento e a aquisição de petróleo, assim como os artigos de mercearia era feita por meio de senhas. Beneficiávamos da dispensa de algumas senhas por parte de pessoas que, não as utilizando, as cediam por razões económicas ou culturais.
Mas mesmo assim, faziam-se muitas economias. À mesa usava-se com frequência o candeeiro de azeite de três bicos; porque os candeeiros de petróleo seriam para se escrever ou ler. Mas também havia o candeeiro grande na sala de visitas; e foi esse que se acendeu.
O meu Pai estava sério; não o recordo zangado, mas apreensivo. Muniu-se de uma pinça que desinfectou com aguardente de casa, e depois de várias tentativas sem nada conseguir, concluiu:
-Tem de se ir amanhã à Póvoa.
A Mãe suspirou com os seus habituais: - ai, ai!...
No dia seguinte, logo pela manhã fui à Póvoa de Varzim com a Mãe e dirigimo-nos à farmácia Lemos. O farmacêutico era nosso conhecido e era uma pessoa simpática e calma. Com um instrumento, que hoje sei tratar-se de uma cureta, tentou arrastá-lo, mas acabou por desistir.
-Não é possível. Quanto mais tento, mais o enterro; é melhor ir ao médico.
-Vamos ao Dr. Vieira Trocado.
Agora é que o pânico se apoderou verdadeiramente de mim. Era o médico lá de casa para as coisas mais complicadas. Sim, porque o médico que frequentava a nossa casa era o Dr. João Alves, conhecido entre nós pelo Dr. de Macieira; grande fumador e jogador de damas. Era bom médico, inteligente, mas dada a amizade e confiança que existia entre nós, quando a situação parecesse mais preocupante, o meu Pai recorria ao Dr. Vieira Trocado.
Não gostava dele. Tinha uma expressão de pessoa incomodada.
Entramos para a sala de tratamentos.
Nem um sorriso!
O tabuleiro do material cirúrgico exibia uma panóplia de ferros, assustadora.
“Não me vai esburacar com aquela ferraria toda”.
“Eu grito” .
Estas frases rolavam no meu pensamento.
A minha cabeça começou a latejar. A Mãe, contrariada, lá me imobilizou conforme as indicações do médico, mas de nada valeu.
Gritei, pontapeei, mordi, de tal forma que, a minha Mãe, ela própria, ordenou que parasse. O médico, mal humorado, repreendeu-a pela incapacidade de me manter submissa e calada.
-Sendo assim, terá que ir ao Porto a um cirurgião; talvez com anestesia...
Entregou um cartão com o nome que ele recomendava.
A Mãe, no entanto, foi-se aconselhar com o meu tio António, irmão dela, que vivia na Póvoa.
-Antes disso vai ao Dr. Sampaio de Araújo.
O Dr. Sampaio de Araújo era um médico recentemente formado e que gozava de muita credibilidade, sobretudo tratando-se de crianças. O meu tio não se cansou de o elogiar. E lá fomos!
O consultório era na residência. Entramos e aguardamos numa sala com uma marquesa ao centro.
Sentia-me perdida. Nunca o tinha visto.
"Como seria agora?"
De repente, entra na sala um homem alto, que compreendi de imediato ser o médico, a rir-se e num ápice, sinto-me a pairar no ar e logo em seguida sentada em cima da marquesa.
-Então o que é que esta menina tão bonita andou a fazer?
-Sabes? Vamos fazer uma partida a esse “milheiro”.
-Vamos dar-lhe uma "mangueirada" e tu vais ver como ele salta cá para fora. Queres ver?
Senti que tinha ali um aliado. Enquanto isso, a empregada preparava a água acidulada bem como os apetrechos necessários.
E sem me aperceber o que se passou...
-Já está.
O grão de milho saltava no fundo da cuvete.
Não sei se ri, se chorei; a alegria era enorme!...
Mais tarde, proporcionou-se frequentar a casa dele.
Ele lembrava-se da menina do grão de milho.
Eu nunca o esqueci.
C C
(fotografia de Mariano Pires)
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sábado, 8 de agosto de 2009
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