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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Poesia



praia da falésia

HOMENS À BEIRA-MAR

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Sophia de Mello Breyner Andresen
( Poesia)

.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O passeio de hoje

Os tempos não vão fáceis...

...é preciso reflectir

...olhar o futuro...

...e ter esperança!



sexta-feira, 3 de junho de 2011

O estilo é tudo







Em grande estilo, o João Maria acompanhou-me esta tarde num passeio pela Boa-Vista, apreciando deliciado as folhagens das árvores e os passarinhos que saltitavam nos seus ramos.
O poder refrescante que uma criança pode ter na secura das nossas vidas.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

POESIA

fotografia de Ana Cancela


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio- dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida

Sophia de Mello Breyner
in
Livro Sexto

sábado, 14 de maio de 2011

POESIA


AS FLORES

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

em No Tempo Dividido

domingo, 17 de abril de 2011

Viagens I

Recordar lugares por onde tenho passado, é de alguma forma viajar outra vez.
E em lugares, onde a fotografia não era autorizada, mas consentida pela forma oportuna como as vigilantes se ausentavam, acrescenta-lhe o sabor do fruto proibido.
Referem-se estas fotografias à Galeria Tretyakov II, em Krymskiy Val, Moscovo. Esta nova Tretyakova alberga Arte Nacional Russa do sec XX. Contem obras do período do realismo socialista, e da segunda geração da vanguarda dos anos 60 até aos anos 80. Obras importantes da vanguarda russa, como Malevich, Chagall, Kandinsky, Filonov e Popova, estão lá representados.
Estas são as primeiras da série:

Jardim das esculturas













domingo, 27 de março de 2011

POESIA



CHOVE!


Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

sexta-feira, 25 de março de 2011

POESIA

Coimbra

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloqial, a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para o meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado, feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neil,

in "Feira Cabisbaixa", 1965

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Migalhas que ficaram VIII

foto de Mariano Pires



Uma Pescaria no Rio Este




Os milhos já tinham saído dos campos. Os estrepes lá estavam aguçados a atestar uma boa colheita e a dilacerar algum pé de quem se afoitasse a andar por ali descalço. As borboletas esvoaçavam febrilmente, irisadas pelo sol outonal, pousando num montículo ou numa folha verde, a chupar em sorvo guloso, o néctar delicioso que as regalava. Uma vaca solitária, pacificamente deambulava por aqueles sítios, a pastar as folhas secas que se tinham desprendido das canas recolhidas. No rio, os peixes vogavam pausadamente, ou até paravam aos cardumes, formados em linha de costado ou de frente.
E os rapazes da Escola, na ida e na volta, em cima da Pinguela* ou debruçados no parapeito da margem esquerda para montante, ali ficavam, embevecidos, a admirar aquela fauna aquática que tanto os maravilhava. Viam-nos pairar mansamente e sentiam um desejo imenso de os pescar, de os ter nas suas mãos, de apalpar as suas escamas, lisas e escorregadias, de sentir nos dedos o latejar angustiado do seu ventre, o arfar ansioso das guelras, o palpitar agitado do coração aflito.
Deitavam migalhas de pão na água para os verem agitar-se em cardumes na disputa do apetitoso manjar. De súbito, surgia uma truta arisca a cruzar-se vertiginosamente nas águas, como um sarrisco; levava outro destino: a caça de algum insecto que bruxuleava à superfície.
Aquela ideia dos rapazes, tão obsessora, tão afincada de os pescar, não os largava. Apoquentava-os. E, quando passavam junto do rio, ou na Pinguela, assumia então proporções incalculáveis.
Se pudessem apanhá-los à mão, até se atirariam à água!
Apresentavam planos, comentavam.
- Eu tenho uma cana da Índia - dizia um.
- E a linha e o anzol?
- Cinco reis dão três - acrescentava outro.
Debatidos os planos e as possibilidades de os realizar, e impelidos por uma indomável força de vontade que impiedosamente os dominava, lá foram adquirindo os apetrechos necessários à obra que com tanto afinco arquitectavam. E, quando todo o equipamento apropriado estava reunido, sem esquecer a caixa das minhocas para as iscas, parecia que a alegria lhes faiscava nos olhos arregalados que, reflectiam o entusiasmo e alvoroço que lhes ia na alma.
.+.
Naquele dia as lições nada deixaram na memória porque, o seu espírito, o sacudia um estrepitoso turbilhão de pensamentos à volta do que iria ser aquela tão desejada pescaria.
Aquilo é que ia ser!
Os peixes, em cardumes à volta do anzol que a isca encobria, febrilmente a debicá-la!...
E esfregavam as mãos e pinchavam em explosões de contentamento.
E quando um, mais guloso e arrojado, engolisse o engodo que lhe ofereciam no anzol ! ?...
Lá viria ele içado na linha!...
Aquilo é que ia ser !...
E, mal se apanharam fora da porta da Escola, abalaram como setas por ali fora até ao ponto previamente escolhido. Uns seriam os actores, munidos de cana, linha, anzol. Os outros seriam os espectadores, a compartilhar das mesmas sensações e anseios dos primeiros.

.+.

A linha foi lançada. Um anzol caiu na água remansada e um pequeno chumbo adrede ligado à linha fê-lo mergulhar.
Espalhou-se, então, na fundura das águas o aroma do saboroso petisco.
Um eirogo lambareiro farejou a isca. Incitado pelo apetite que ela lhe despertara, saiu do esconderijo na toca de uma cepa de salgueiro e dirigiu-se por entre as poldras do fundo para ali.
O pescador, cá de cima, observava-lhe os movimentos. As fontes a latejar e o coração apertado, comprimido, ia pulsando a custo. Parecia que abafava.
Um louva-a-deus a cofiar as mandíbulas, pousado numa folha de amieiro contemplava a cena a olhar de soslaio pelo lado esquerdo.
O peixe abriu a boca e engoliu a isca. Fez um oco na cervis. Engoliu mais fundo para desprender o pitéu e sentiu no gasganete uma picada do anzol, mas não desistiu. Retesou os músculos e enrolou-se numa pedra para se firmar e não deixar escapar a presa apetitosa.
O pescador, nervosamente atento, nem respirava; e, pressentindo uma ligeira pressão na cana e vendo-o a colear-se e a querer apoderar-se melhor do manjar, monologou com os seus botões:
- É agora!
E zás, dá um puxão violento. Mas, quando contava ver a enguia a contorcer-se no ar enganchada pelas guelras, presenciou, desolado, uma bola de chumbo na extremidade da linha a baloiçar no espaço.
A linha quebrara. E o louva-a-deus que presenciara a cena a olhar de nesga, fez uma figa por despedida, e agitando as asas a brilhar ao sol, dourado desse dia, foi pousar no cucuruto frondoso dum freixo da margem oposta.
Os outros estavam radiantes. Haviam pescado três peixes que enfiaram pelas câmaras branquiais numa gancha de salgueiro cortada ad hoc.
Neste momento, o Zeferino Martins atravessava a Pinguela e dirigia-se sorridente e alegre para o grupo. Vinha descalço e em mangas de camisa arregaçadas, e, na cabeça um chapéu de palha de copa afunilada e aba larga, muito em uso nas estações quentes.
Trazia adjungido à mão, por um atilho, um pequeno carro de duas rodas, cabeçalha e foeiros, miniatura de carro de lavoura, e mostrou-se desejoso de transportar nele a peixaria acabada de pescar.
Feita a carga o carro ficou cheio. Três peixes do tamanho de dedos, encheram o carro. E lá seguiram alegremente...

Rates ( escrito nos anos 60)
Joaquim D. Cancela


*Pinguela-nome da ponte onde a cena se passou

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Não

Não devia ser permitido
que os bébés se "constipassem"... tossissem...chorassem...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

POESIA

Leça

O meu cansaço
é um barco velho
que apodrece
na praia deserta

Fernando Pessoa

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Passeio no Parque



Parque da cidade
fotos de TM

domingo, 30 de janeiro de 2011

O João Maria já ri


O João Maria completou três meses. Que grande!!!!!!

e para ele...

Manhã


Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

POESIA

Praia dosTrês Irmãos

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Mar, p. 10

Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

POESIA

Prainha
Quando


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos

sábado, 6 de novembro de 2010

O João Maria chegou há um instante


(...)Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.(...)
.
Sophia de Mello Breyner
in Coral

terça-feira, 19 de outubro de 2010

a praia deserta



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
.
Sophia de Mello Breyner
em Dia do Mar

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

fim de verão

Moledo - ontem



O Sol liquefaz-se, é rio;

A sua luz, água ao vento;

Sobre o mar turvo, cinzento,

Tem qualquer coisa de frio.



Chamam-lhe Deus os pagãos.

Depois, o Sol, quando passa

Solta os cabelos, com graça,

Deixa-nos oiro nas mãos...
.

Pedro Homem de Melo
em Bendito

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O DOURO ontem na foz do SOUSA




Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
-surdo,subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

sábado, 1 de maio de 2010

MAIO